Arquidiocese de Braga -

1 janeiro 2026

Paz, caminho da humanidade

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Homilia do Arcebispo, D. José Cordeiro, na Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, 1 de janeiro de 2026

1. Oitava do Natal de Jesus

Ainda vivemos e celebramos hoje o dia de Natal, na sua oitava. A Igreja, na sua milenar sabedoria, coloca à nossa meditação o mistério do Natal, ajudando-nos, com a liturgia da Palavra de hoje, a aprofundar um pouco mais esse mesmo mistério. 

A partir da primeira leitura, retirada do Livro dos Números, percebemos que o nascimento do Messias inaugura uma nova era de bênçãos para o povo de Deus: habitando no meio da humanidade e com a humanidade, Deus volta para nós a sua face, fazendo brilhar sobre nós a luz que nos abençoa e protege. 

Tal como Paulo anunciou aos Gálatas, a obra redentora de Cristo, que nos seus gestos e palavras veio anunciar que Deus nos olha como um Pai e nos resgatou da escravidão do pecado, marca a plenitude dos tempos e é nessa plenitude da graça que todos nós somos chamados a viver, tal como Maria, a mãe de Deus, que também hoje celebramos.

2. Coração da Jovem Mãe

Ela, que “conservava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração”, mostra-nos o caminho do discípulo: abrir-se constantemente à graça para em cada momento saber dizer “faça-se” (cf. Lc 1,38).

O caminho do discipulado não é isento de dificuldades. Por vezes romantizamos o Natal, mas Maria e José passaram por muitas provações e dificuldades ao aceitarem a missão que lhes foi confiada. A fé, a esperança e o amor desta mulher e deste homem foram, porém, mais fortes que todas as dificuldades; confiando em Deus conseguiram ultrapassar todos os obstáculos, trazendo ao mundo o Salvador. Também nós podemos ser discípulos fiéis, como Maria e José. 

Neste dia 1 de janeiro comemoramos igualmente o Dia Mundial da Paz. Na noite de Natal, no anúncio aos pastores, a multidão celeste cantou “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por ele amados” (Lc 2,14). A tradição profética também chama ao Messias o Príncipe da Paz (cf. Is 9,6). O Messias ressuscitado dirá aos seus discípulos: “A paz esteja convosco” (Jo 20,19). Podemos, por isso, afirmar que na Sagrada Escritura a palavra paz é um dos fortes referenciais, o qual não podemos ignorar. 

Assim, não é de estranhar que o nascimento do Messias seja associado ao dom da paz, porque a paz é exatamente isso: um dom divino que vai muito além da ausência de guerra. Basta pensarmos que muitas pessoas vivem em países que não estão em guerra, como o nosso, mas não conseguem viver a verdadeira paz, porque a verdadeira paz implica a harmonia de todas as vertentes da condição humana – física, psicológica e espiritual – e implica, sobretudo, a reconciliação com Deus através de Jesus Cristo. 

3. Abrir-se à Paz

Há muitos fatores que nos podem impedir de viver a plenitude da paz, e a incapacidade de ter as condições mínimas para viver de forma digna é uma delas. 

Em Braga (cidade e concelho), no ano 2025, aumentou o número de pessoas sem abrigo. Os dados mostram que em dezembro de 2025 viviam em situação de sem-abrigo 242 pessoas: 182 pessoas sem casa, acolhidas em locais de alojamento temporário, e 60 pessoas sem teto. Este grande aumento em relação a 2024 explica-se, principalmente, pela escassez de casas disponíveis face à procura. Braga tem aumentado a sua população com os recentes fluxos migratórios, sendo, além disso, uma cidade muito procurada por turistas e por estudantes. O Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem Abrigo de Braga identificou como prioritária a criação de um Albergue (enquanto resposta de alojamento temporário e de emergência, e a implementação de um Centro de Dia/Ocupacional, que permita um acompanhamento ajustado às necessidades individuais, promovendo atividades ocupacionais, desenvolvimento de competências pessoais e sociais, bem como o acesso a apoio social, higiene pessoal, alimentação, orientação e encaminhamento para respostas de saúde, emprego e habitação).

São bem-aventurados os que promovem a paz (cf. Mt 5,9), e não podemos ficar apenas por pedir o fim da guerra. Para colaborarmos na promoção da verdadeira paz temos de trabalhar em conjunto para ir eliminando as injustiças da nossa sociedade, que contribuem para a falta de paz: a riqueza mal distribuída, com tanto nas mãos de tão poucos; as desigualdades no acesso aos cuidados de saúde; as dificuldades em alugar uma casa; a falta de acolhimento aos migrantes; entre outras.

Como escreveu o Papa Leão XIV na mensagem para este LIX Dia Mundial da Paz: «Queridos irmãos e irmãs, quer tenhamos o dom da fé, quer pareça que não o temos, abramo-nos à paz! Acolhamo-la e reconheçamo-la, em vez de a considerarmos distante e impossível. Antes de ser um objetivo, a paz é uma presença e um caminho».

A paz é a presença de Cristo em nós, e é um caminho que o próprio Cristo nos indica: os gestos concretos de bondade que cada um de nós põe em prática no dia-a-dia são os que construem a paz que desarma. «A bondade é desarmante. Talvez por isso Deus se tenha feito criança. O mistério da Encarnação, que tem o seu ponto mais extremo de esvaziamento na descida aos infernos, começa no ventre de uma jovem mãe e manifesta-se na manjedoura de Belém» (Leão XIV). O mesmo Jesus diz-nos em cada celebração da Eucaristia: «Isto é o Meu Corpo, entregue por vós».

M. Gandhi dizia: «Não há caminho para a paz. A paz é o caminho». Não desistamos, por isso, de promover a paz, e que Maria, Mãe de Deus, nos guarde e confie ao Príncipe da Paz. 

 

+ José Manuel Cordeiro

Arcebispo Metropolita de Braga