Arquidiocese de Braga -
2 fevereiro 2026
Opinião
O Arcebispo que foi Rei
Neste insigne rol integra-se igualmente um arcebispo que, inesperadamente, haveria de tornar-se Rei de Portugal. Falamos de D. Henrique, oitavo filho do Rei D. Manuel I, com sua segunda esposa, D.ª Maria de Aragão, que assumiria o trono após a trágica morte do seu sobrinho-neto, D. Sebastião, no desastre de Alcácer-Quibir.
Após o falecimento de D. Diogo de Sousa, o mais marcante arcebispo da história bracarense, sucedida a 19 de junho de 1532, o rei D. João III haveria de indicar, como sucessor do prelado, o seu irmão, o Infante D. Henrique de Portugal, que havia optado pelo estado eclesiástico. No entanto, como tinha completado apenas 21 anos de idade, o Papa, aceitando a designação do monarca, acabaria por permitir que a sua tomada de posse ocorresse apenas completar o seu 27.º aniversário, sem prejuízo do início do seu governo e jurisdição.
Tendo nascido e morrido exatamente no mesmo dia, o Infante D. Henrique nasceu a 31 de janeiro de 1512, tendo vindo a falecer a 31 de janeiro de 1580, precisamente no dia em que completava o seu 68.º aniversário. Tendo sido designado para a Igreja de Braga ainda desprovido da ordem do presbiterado, D. Henrique manter-se-ia em Évora até concluir a sua preparação, que esteve a cargo de Nicolau Clenardo, sacerdote e humanista flamengo, que se encontrava em Salamanca. Somente, após a sua ordenação presbiteral, que terá ocorrido em 1537, o arcebispo eleito entraria oficialmente na cidade de Braga, embora ainda desprovido das plenas faculdades episcopais.
Diz-nos D. Rodrigo da Cunha, na sua “História Eclesiástica dos Arcebispos de Braga”, que D. Henrique “buscou para o governo do Arcebispado os melhores letrados e oficiais que havia, eminentes em todo o género de faculdades” (Cunha, 1635). As personalidades a que se refere o arcebispo-historiador eram os mestres flamengos Nicolau Clenardo, João Vaseu e, certamente, Marcial de Gouveia, que o jovem prelado chamaria para estabelecer o Colégio de São Paulo, a mais relevante iniciativa da sua curta prelazia bracarense.
O Colégio de São Paulo foi instituído pelo arcebispo D. Diogo de Sousa no ano de 1531, após insistentes tentativas com o intuito de aí instalar um Colégio de Artes e Teologia (Rodrigues, 1978). Com o falecimento do prelado no ano seguinte, o projeto do Colégio passaria a ser incumbência do seu sucessor, que se empenharia particularmente no seu estabelecimento.
Seria precisamente o futuro cardeal e monarca quem avançaria com o processo de edificação do espaço do Colégio, concebendo igualmente o seu projeto pedagógico. Tendo manifestado o desejo de o transformar na segunda universidade portuguesa, o prelado haveria de iniciar formalmente as atividades letivas dos Estudos Públicos de Braga.
Uma das iniciativas de D. Henrique que ficará gravada na história de Braga é a concessão da Carta de Foral à cidade de Braga, datada de 24 de outubro de 1537, na qual ficou consignado as portagens e direitos reais, que pertenciam anualmente à Igreja de Braga (Ferreira, 1932). Dado que Braga era, então, um senhorio eclesiástico, esta Carta de Foral não era similar aos demais concelhos, mas apenas um documento regulador das tarifas e suas atribuições, obedecendo, assim, aos normativos municipais aplicados durante o reinado de D. Manuel.
O arcebispo D. Henrique haveria igualmente de reunir Sínodo Diocesano no ano de 1537, tendo publicado as respetivas Constituições. No ano seguinte, haveria também de promover a publicação do Manual dos Sacramentos e do novo Missal Bracarense.
Apesar de já estar a exercer os seus poderes legitimamente, apenas o fazia na qualidade de Administrador e Arcebispo eleito. Apenas passaria a usufruir da plenitude das suas funções quando completasse 27 anos, o que veio a suceder a 31 de janeiro de 1539. Por isso mesmo, o arcebispo D. Henrique apenas seria sagrado oficialmente como Arcebispo de Braga nessa data, tal como disposto pelo Papa Clemente VII, no momento da sua eleição. Seria também neste ano, e certamente na sequência da sua ordenação episcopal, que seria nomeado Inquisidor-Mor do Reino, cargo em que estaria investido ao longo de 40 anos.
O prelado apenas usufruiria da plenitude das suas funções como Arcebispo de Braga durante pouco mais de duas dezenas de meses, já que a 24 de setembro de 1540, o Papa Paulo III elevaria a Igreja de Évora a Arcebispado, designando D. Henrique como seu primeiro Arcebispo, terminando oficialmente a sua prelazia bracarense, após apenas sete anos de governo.
Dotado de singular prestígio, acrescido da sua origem régia, D. Henrique haveria de ser designado Cardeal, com o título dos “Santos Quatro Coroados”, a 16 de dezembro de 1545, tendo, nessa qualidade, participado em quatro Conclaves.
Após uma longa prelazia em Évora, totalizando 24 anos, haveria de ser designado Arcebispo de Lisboa, no ano de 1564. Nesse período, haveria de assumir a regência do Reino de Portugal, em virtude da menoridade do herdeiro do trono, D. Sebastião. Regente de Portugal entre 1562 e 1568, momento em que D. Sebastião assumiria o trono, em 1578, na sequência do desastre de Alcácer-Quibir, tornar-se-ia, inesperadamente, Rei de Portugal, missão que assumiria até à sua morte, ocorrida a 31 de janeiro de 1580, dando início a seis décadas de domínio castelhano.
A Rua do Infante
Da sua missão como Senhor de Braga, esta será, porventura, a única obra pública que é atribuída a Dom Henrique. Falamos da rua do Infante, assim designada pelo facto do arcebispo a ter mandado alargar e alinhar, de acordo com o cânones renascentistas. Referimo-nos à antiga rua dos Pelames, artéria cujo traçado recuará, pelo menos, à Idade Média, prolongando-se desde o campo de Santiago até uma das mais antigas travessias sobre o rio Este. A reforma desta rua integrou-se no projeto de implantação do Colégio de São Paulo, tendo-se tornado no seu principal acesso extramuros, já que se vinculava diretamente à Torre-Porta de Santiago. Atualmente dividida em dois topónimos - a metade norte designa-se de São Geraldo e a metade sul homenageia o Monsenhor Airosa - esta artéria não terá sido reconhecida como “rua do Infante” durante muito tempo, já que o topónimo “Pelames” já era corrente no século XVII, referindo-se devido à atividade do tratamento dos couros, que decorria em tanques localizados perto do rio Este, que ainda existiriam no final do século XIX, aparecendo representados na Planta Topográfica de Braga de Francisque Goullard, datada de 1883/1884.
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