Arquidiocese de Braga -

2 março 2026

Profundidade de pensamento caracteriza livros de João Paulo Costa

Fotografia DR

Cláudia Costa

Obras foram apresentadas no Mercado Cultural do Carandá

“Textos serenos e profundos” e “gritos abertos no silêncio”. Foi assim que o Cónego Joaquim Félix de Carvalho caracterizou os dois livros de João Paulo Costa, apresentados esta sexta-feira à noite no Mercado Cultural do Carandá. A sessão, que contou com a presença de dezenas de pessoas, incluiu uma performance de dança contemporânea, pela Companhia de Dança Arte Total, e um recital poético, com a participação de Fernando Soares (voz) e João Tiago Magalhães (piano).

“Urdiduras espaciais” (um livro de poesia) e “Com sabedoria se habita uma casa”, as duas obras apresentadas, “são divisões luxuosas da cultura” e uma “sofisticação poética da sabedoria”.

A mensagem de ambos os livros é semelhante ao testemunho que os atletas passam uns aos outros numa prova de estafeta. João Paulo Costa “coloca no centro da casa pensadores que, como ele, nos dão que pensar”.

O Cónego Joaquim salientou o facto de o autor acreditar que este mundo assolado pela guerra, violência e intolerância “não é o único mundo possível. E talvez não esteja sozinho”.

Carlos Poças Falcão, autor do prefácio de um dos livros, destacou que o pensamento do autor “acaba por jogar com a vertente filosofante ensaística e de teólogo” de João Paulo Costa, que é possível encontrar em ambas as obras. Cada página de “Com sabedoria se habita uma casa”, “é densa e estimulante. São múltiplas as pistas que nos fascinam”. Este é um ensaio que convoca vários saberes, nomeadamente as artes plásticas, a música, a sociologia e a filosofia.

Durante a sessão, moderada por Eduardo Jorge Madureira, o editor, José Rui Teixeira, referiu que ao nível da poesia “passamos de um fulgor para um lento empobrecimento”. A editora que representa procura “dar voz a um grupo de poetas que não tinha espaço” noutros projetos editoriais. “O editor é esse espaço ‘esquecido’ que medeia o poeta e o leitor. Só há uma grande comunidade de leitores e poetas se houver grandes editores”.

Carlos referiu que num primeiro momento reagiu “um pouco negativamente” à proposta de publicação apresentada por João Paulo Costa. Ao ler uma segunda versão enviada, fez uma “leitura aberta”, em que o leitor toma a seu cargo “fazer o jogo que o autor propõe”. 

Numa intervenção marcada pela tónica do agradecimento, João Paulo Costa referiu que “o pensamento é um ato de amizade, reúne as pessoas e faz coexistir. Pensar é agradecer porque pensamos juntos”.

As duas obras agora apresentadas são “livros de um corpo nómada, em movimento, em viagem”, afirmou, acrescentando que, de uma forma ou de outra, as pessoas com quem tem contactado têm-lhe aberto mundos. Nesse sentido, diz “ver através de… e nunca sozinho”.

João Paulo Costa abordou a existência do homem “político”, “religioso”, “descrente” e “económico”, destacando que “a filosofia da sabedoria acaba por dizer que temos uma existência indivisa. Somos tudo isso”, frisou. Na sua opinião, “o extremar de ideias em vários âmbitos vem da ausência de um pensamento lúcido. Procuramos respostas nos livros porque eles nos dão indícios”.

A propósito da relação de cada pessoa com o mundo, o escritor sustentou que “o mundo fala em nós” e para que tal aconteça, “além dos ecrãs e ruídos, há três elementos fundamentais: o silêncio, a contemplação e a meditação”. Estes três elementos podem incluir “o corpo que caminha” e “o contacto numa igreja vazia e em silêncio”. “Cada um encontrará a forma de contemplar e meditar”.

Numa intervenção que terminou com o poema de Sebastião da Gama “O Sonho”, João Paulo Costa salientou que “o conhecimento, a educação e a cultura” são as vertentes que permitem avançar no mundo.