Arquidiocese de Braga -
4 março 2026
Opinião
Os franciscanos na cidade de Braga
Trilhos Bragueses
A espiritualidade franciscana já dava mostras de querer despontar na cidade de Braga passados mais de três séculos do surgimento da ordem religiosa fundada pelo “pobre” de Assis em 1209. Devido às prerrogativas inerentes ao senhorio eclesiástico que vigorava sobre o território bracarense desde o século XII, os franciscanos preferiram instalar-se em outras localidades, atrasando o ingresso da proposta de São Francisco de Assis na cidade arcebispal.
Seria apenas no século XVI, mais propriamente durante a prelazia do arcebispo D. Diogo de Sousa, que surgiriam os primeiros núcleos instituídos sobre esta inspiração. Primeiro, com a criação de um convento franciscano da Província dos Capuchos da Piedade, junto à capela de São Frutuoso, em 1523. Depois, em 1544, com a fundação do Convento de Nossa Senhora da Piedade e dos Remédios, de religiosas terciárias franciscanas, que ocupava uma vasta área compreendida entre o atual largo Carlos Amarante e o topo norte da Avenida da Liberdade. Este convento, fundado pelo religioso andaluz D. Frei André de Torquemada, Bispo Auxiliar e membro da Ordem Terceira franciscana (Capela, 1923), seria o primeiro a surgir no perímetro urbano e, curiosamente, o primeiro a ser demolido, entre 1908 e 1911.
A estas duas referências haveria de juntar-se uma corporação de leigos, a Arquiconfraria do cordão de S. Francisco, instituída em 1615 numa capela da Sé Primaz, intitulada de “S. Francisco das Chagas”, por intermédio do cónego Francisco da Costa. Seria a partir desta corporação que seria instituída, na cidade de Braga, a Ordem Terceira secular, corria o ano de 1672.
Recorde-se que a Ordem Terceira é uma das três instituídas por Francisco de Assis, subdividindo-se no ramo regular e no ramo secular. Este último ramo, que congrega leigos e casados, emana da necessidade de agregar os fiéis cristãos em torno desta espiritualidade. O templo da Ordem Terceira, começado a construir em 1690, tornar-se-ia num dos espaços preferenciais de implantação da espiritualidade franciscana na cidade de Braga.
No âmbito da mesma proposta espiritual estava a Ordem da Imaculada Conceição, que haveria de instituir dois conventos na cidade de Braga. Fundadas pela portuguesa Santa Beatriz da Silva, em 1489, as concepcionistas seguiam a regra de Santa Clara de Assis, a segunda ordem franciscana. O primeiro convento foi fundado em 1625, por intermédio de dois sacerdotes bracarenses, Geraldo Gomes e Francisco Gomes, tendo ficado instalado na antiga rua dos Pelames, correspondendo ao atual Instituto Monsenhor Airosa.
O segundo convento desta ordem seria fundado em 1721, por iniciativa do arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles, convertendo o Recolhimento da Penha de França, instituído em 1652 pelo casal devoto Pedro Aguiar e Maria Vieira, no segundo convento concepcionista de Braga.
A partir de 1825, os franciscanos haveriam de instalar um seminário na Falperra. Designado como Convento de Missionários Apostólicos de São Francisco de Assis, foi uma iniciativa da Ordem dos Frades Menores que teve uma existência particularmente efémera. Construído em terrenos cedidos pela Irmandade de Santa Maria Madalena, apenas terá começado a funcionar em 1833, estando ainda inacabado quando foi decretada a extinção das ordens religiosas em Portugal, ocorrida no ano seguinte.
Terminada abruptamente a presença dos franciscanos na cidade de Braga, após o decreto que extinguiu as ordens religiosas em Portugal no ano de 1834, os franciscanos haveriam de regressar à cidade de Braga em 1890 (Belino, 1900), desta vez para instalarem um convento em Montariol, precisamente na mesma propriedade que pertencera aos Jesuítas entre 1562 e 1759.
A construção do templo, cujo edifício corresponde sensivelmente ao atual, iniciou-se logo no ano seguinte, no entanto, apenas seria benzido a 8 de dezembro de 1908. Dois anos depois, com o advento da República, o convento de Montariol passaria, entretanto, para a posse do Estado. Durante este período o interior do templo foi espoliado de quase todo o seu recheio, entre retábulos, imagens e até o órgão.
A propriedade haveria de regressar à posse dos franciscanos após 1926 e voltaria a ser habitada a partir de outubro de 1928. Foi neste período que se iniciaram as obras do atual edifício, que funcionou, durante as décadas seguintes, como seminário dos jovens que pretendiam aderir à ordem franciscana.
Centrada na comunidade de Montariol, a presença dos franciscanos na cidade de Braga tem-se revelado de enorme pertinência. Além da editorial que ali esteve sediada, os franciscanos têm dedicado a sua ação à pastoral da saúde, tendo erigido uma unidade de cuidados continuados no recinto de Montariol.
Os Arcebispos Franciscanos
A ilustre plêiade de Arcebispos de Braga integra seis nomes originários dos diversos ramos da ordem franciscana. O primeiro foi D. Frei Telo, arcebispo entre 1279 e 1292, tendo mediado o conflito que opôs o episcopado português ao rei D. Dinis. Seguiu-se Frei Diogo da Silva, arcebispo por escassos meses entre 1540 e 1541, que foi o primeiro inquisidor-mor português. O nome mais marcante desta lista foi D. Frei Caetano Brandão, arcebispo entre 1790 e 1805. Membro da Ordem Terceira Regular, demarcou-se da opulência dos seus antecessores, tendo manifestado uma singular preocupação pelos mais frágeis da sociedade bracarense. Outro dos prelados franciscanos foi Frei Miguel da Madre de Deus da Cruz, que ocupou o sólio bracarense entre 1815 e 1827, antecedendo um período de 16 anos em Sede Vacante. O derradeiro Arcebispo proveniente da ordem franciscana foi D. João Crisóstomo de Amorim Pessoa. Governando a Igreja de Braga entre 1876 e 1883, ficou associado à trasladação do Seminário para o antigo Colégio de São Paulo. Neste insigne rol tem sido integrado o nome de Frei Pedro de Lencastre, 5.º Duque de Aveiro e Inquisidor-Mor do Reino, que terá sido designado para a Sé de Braga em 1654, não havendo indícios que tenha tomado posse.
O mais relevante cerimonial público vinculado à espiritualidade franciscana, que se costumava realizar na cidade de Braga, era a Procissão das Cinzas, uma organização da Ordem Terceira de São Francisco realizada no primeiro domingo da Quaresma. Decorrendo plausivelmente desde a fundação desta corporação, que ocorreu em 1672, teve a sua derradeira ocorrência no ano de 1905.
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