Arquidiocese de Braga -

3 abril 2026

«Não podemos estar a celebrar a ceia do Senhor e odiarmo-nos uns aos outros»

Fotografia André Arantes

DM - Rita Cunha

Núncio Apostólico apelou ontem, na missa da ceia do senhor, à reconciliação entre cristãos

A Sé Catedral de Braga encheu-se, na tarde de ontem, Quinta-feira Santa, para a celebração da Missa da Ceia do Senhor, um dos momentos centrais do calendário litúrgico da Semana Santa bracarense. A cerimónia incluiu o tradicional Lava-Pés, este ano presidido pelo Núncio Apostólico em Portugal, D. Andrés Carrascosa Coso, que lavou os pés a 12 pessoas, evocando o gesto de humildade e serviço de Jesus Cristo para com os apóstolos.

No início da celebração, e perante uma Catedral lotada, o representante diplomático da Santa Sé saudou os fiéis em nome do Papa Leão XIV, afirmando desejar ser «simplesmente, a presença dele, o amor dele por estas terras portuguesas».

Na homilia, recordou o significado profundo da Quinta-feira Santa, sublinhando que a Igreja celebra nesta liturgia três realidades: o nascimento da Eucaristia, a instituição do sacerdócio e o mandamento do amor fraterno simbolizado no Lava-Pés. «Estamos a celebrar a missa na Ceia do Senhor, um dos momentos mais importantes do ano litúrgico», afirmou, explicando que a Última Ceia representa a nova Páscoa inaugurada por Cristo, que permanece junto dos fiéis na Eucaristia.

O Prelado destacou que a presença de Cristo no pão e no vinho consagrados é sinal de proximidade e força para os cristãos diante das dificuldades da vida, lembrando que a participação na missa não deve ser vivida como obrigação, mas como encontro com Deus.

Ao abordar a instituição do sacerdócio, D. Andrés Carrascosa Coso pediu aos fiéis maior compreensão e oração pelos padres, alertando para a tendência de crítica fácil dentro das comunidades cristãs. «É mais fácil criticar os padres do que rezar por eles», afirmou, incentivando os presentes a assumirem a responsabilidade de apoiar espiritualmente aqueles que exercem o ministério sacerdotal.

O Núncio recordou ainda que os sacerdotes são «pobres pecadores, como somos todos os humanos» escolhidos por Cristo para continuar a celebrar a Eucaristia no meio do povo.

A parte final da homilia centrou-se no gesto do Lava-Pés e no mandamento do amor, apresentado como critério essencial da vida cristã. Citando o Evangelho, o representante da Santa Sé recordou que os discípulos de Jesus são reconhecidos pela capacidade de amar e servir. «Não podemos estar a celebrar a Ceia do Senhor e estar a odiarmo-nos uns aos outros», afirmou, alertando para divisões e rivalidades que surgem até dentro das próprias comunidades e nas famílias.

O Núncio Apostólico sublinhou que o primeiro lugar onde o amor cristão deve ser vivido é no quotidiano familiar: «O teu próximo, sabes onde está? Em casa», vincou, explicando que o gesto de lavar os pés traduz-se concretamente na capacidade de perdoar, superar conflitos e colocar o outro em primeiro lugar, combatendo o egoísmo que fragiliza relações pessoais e comunitárias.

No final, D. Andrés Carrascosa Coso lançou um apelo às vocações sacerdotais, pedindo que da Arquidiocese de Braga surjam novos padres ou religiosas e que as famílias apoiem os jovens que sintam esse mesmo chamamento. «O Senhor continua a chamar», lembrou, incentivando os fiéis a não desencorajarem quem manifesta vontade de discernir uma vocação religiosa.