Arquidiocese de Braga -

4 junho 2026

Para uma espiritualidade eucarística

Fotografia DACS

Solenidade do SS. Corpo e Sangue de Cristo, Sé Primaz – 04.06.2026

1. Se não comerdes, se não beberdes...

Se não comerdes a Carne do Filho do homem e não beberdes o seu Sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6,53). Este é um dos versículos mais desafiantes do evangelho segundo João; escandalizou muitos dos que ouviam Jesus a ponto de até alguns discípulos deixarem de seguir o Senhor. Passados dois mil anos, continua a ser desafiante para nós acreditar que a Eucaristia é presença real e verdadeira do Senhor Jesus entre nós.

Porque é que temos necessidade de comungar e adorar o Senhor? Porque a Eucaristia é o centro de toda a vida cristã e nela temos acesso privilegiado ao Senhor e aos dons que Ele quer dar a cada um dos seus filhos.  Porque “na santíssima Eucaristia está contido todo o bem espiritual da Igreja, que é o próprio Cristo, nossa Páscoa e pão vivo, que, pela sua carne vivificada e vivificadora sob a ação do Espírito Santo, dá vida aos homens” (Presbyterorum ordinis, 5).

Na Eucaristia encontramos tudo o que precisamos para uma vida em plenitude, a qual será completa na vida eterna; e porque pela Eucaristia o Senhor continua a atuar na história humana, transformando-a para que seja cada vez mais próxima do Reino de Deus.

Quando comungamos somos nós que somos transformados pelo pão eucarístico. O Senhor em nós fortalece-nos e impele-nos a imitá-Lo no amor a todos, combatendo o mal e tudo o que não dignifica o ser humano.

Quando adoramos o Senhor não contemplamos apenas uma hóstia branca; estamos diante Dele para O escutar, para lhe falar da nossa vida. Mas na adoração somos, sobretudo, chamados a comungar, porque, como ensina a Igreja, a exposição do Santíssimo para adoração tem de conduzir à íntima união com Ele através da comunhão eucarística na missa.

 

2.Centralidade da Eucaristia

Celebramos há dois anos o 5.º Congresso Eucarístico Nacional e os frutos desse congresso continuam a frutificar na nossa Arquidiocese. Depois de retomarmos a adoração eucarística em todos os dias do ano em pelo menos uma paróquia da Arquidiocese; havendo mais igrejas de portas abertas para que os fiéis possam entrar e rezar; no dia de hoje, na cidade de Braga e após a procissão com o Santíssimo Sacramento pelas ruas da cidade bracarense, mais uma igreja inicia a adoração perpétua: nas vinte e quatro horas do dia, em todos os dias do ano. Na igreja paroquial de São João do Souto, um grupo de pastores e de fiéis organizou-se de modo a garantir a presença de pessoas, noite e dia, a adorar o Senhor sacramentado.

O caminho de aplicação das conclusões do Congresso continua até que todos percebamos a “centralidade da Eucaristia na vida dos crentes e a missão confiada a cada um que comunga o Corpo de Jesus, de ser esperança no mundo e para o mundo, numa época desafiante e de vertiginosas transformações” (conclusões do 5.º CEN, 2024).

 

3.A Eucaristia abre à justiça e à partilha

O Senhor quer e quererá sempre o nosso bem; é por isso que quis ficar entre nós, na presença permanente no pão consagrado. E neste tempo profundamente desafiante, nomeadamente através dos dilemas que a inteligência artificial coloca ao ser humano, é fundamental não esquecermos a importância da Eucaristia. Como escreveu o Papa Leão XIV na carta encíclica Magnifica Humanitas: “A Eucaristia abre-nos à justiça e à partilha, com uma atenção preferencial para com quem carrega o fardo da pobreza e da marginalização. E, enquanto as novas redes económicas e tecnológicas podem gerar exclusão, isolamento e dependências, a Igreja alimentada pela Eucaristia é chamada a mostrar outro critério, preservando os vínculos, devolvendo voz aos que se não veem e orientando os processos para a dignidade das pessoas” (MH, 235).

 

+ José Manuel Cordeiro
Arcebispo Metropolita de Braga