Arquidiocese de Braga -
5 junho 2026
Rostos de misericórdia
Missa do 15.º Congresso Nacional das Misericórdias, Sé Primaz – 05.06.2026
1.Evangelho em tempo complexo
Jesus Cristo foi um Mestre que ensinava com palavras e por gestos. Os seus discursos e ensinamentos orais eram escutados pelas pessoas do seu tempo quer com espanto, dada a autoridade que transparecia na sua voz (Cf. Lc 4,32) quer com prazer, tal como nos diz o evangelho de hoje (Cf. Mc 12,37).
A rotina e a familiaridade que temos com as Escrituras, sobretudo com os Evangelhos, podem impedir-nos de entender a perene novidade da Palavra de Deus, que espanta e é prazenteira, e que ainda que tenha sido escrita num determinado tempo, fala da experiência humana e da experiência que a humanidade faz da sua relação com Deus, que agiu e continua a agir na história da humanidade. O Evangelho é imutável, porque o Evangelho é o próprio Cristo, que é sempre o mesmo “ontem, hoje e por toda a eternidade” (Hb 13,8), mas o modo de transmitirmos o Evangelho às pessoas tem de ser adaptado às circunstâncias de cada tempo, e o nosso tempo é um tempo complexo, tal como o foram outros na história.
2.Misericórdia é caminho de união
Há dez anos vivemos o Ano Santo extraordinário de 2016, convocado pelo Papa Francisco e dedicado ao tema da misericórdia. Na Bula de proclamação o Papa dizia que “Precisamos sempre de contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o acto último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado” (Misericordiae Vultus, 2).
Ser misericordioso é sentir as dores do outro como se fossem as nossas próprias dores; é pôr o nosso coração sobre a miséria do outro. As Santas Casas da Misericórdia foram uma resposta assistencial para problemas concretos de um tempo, mas que no fundo são problemas de todos os tempos. Tal como no século XV, no século XXI continuam a existir pobres, marginalizados e abandonados que necessitam das nossas obras de misericórdia, quer espirituais, quer corporais. Por isso, a missão das Santas Casas da Misericórdia continua atual sendo um pilar fundamental do setor social em Portugal. Por isso, agradeço o vosso serviço dedicado àqueles que mais precisam.
3.Saber cuidar uns dos outros
Neste tempo de tremendos avanços tecnológicos, certas correntes agem na sociedade tendo por base o pensamento “que imagina um aperfeiçoamento do ser humano através das tecnologias (biomedicina, engenharia corporal, dispositivos, algoritmos), aspirando a aumentar o seu desempenho e capacidades” (MH, 116), o que comporta sérios riscos, tal como alertou o Papa Leão XIV na sua encíclica Magnifica Humanitas: “se o ser humano for tratado como matéria a aperfeiçoar ou a ultrapassar, é então mais fácil aceitar que alguns sejam considerados menos úteis, desejáveis e dignos. Em nome do progresso, pode chegar-se a imaginar “sacrifícios necessários” e a fazer com que os mais frágeis paguem o preço de uma suposta otimização da espécie” (MH, 117).
Assim, num tempo em que parece que alguns defendem que a inteligência artificial irá resolver todos os problemas; num tempo em que alguns querem fazer crer que a dignidade de uma pessoa depende da sua eficiência ou da sua produtividade, o que pode levar a concluir que aqueles que não produzem ou não são úteis à sociedade são seres humanos de segunda, ouso dizer que a missão das Santas Casas da Misericórdia de Portugal neste séc. XXI é humanizar e misericordiar, para vencermos a lógica da eficiência e utilidade, porque tal como escreve o Papa Leão XIV, a sociedade precisa de “instituições civis capazes de superar a lógica da eficiência, orientando explicitamente recursos, criatividade e normas em favor dos mais vulneráveis”. (MH, 158).
O Santo Padre vai ainda mais longe ao dizer que “a qualidade de uma civilização não se mede pelo poder dos seus meios, mas pelo cuidado que sabe oferecer, pela capacidade de reconhecer o outro enquanto pessoa e não enquanto função. Uma dimensão importante do nosso ser humanos é a capacidade de saber cuidar uns dos outros” (MH, 114).
Por isso, aqueles que dirigem as Misericórdias em Portugal tem a particular missão de orientar toda a sua ação colocando a dignidade de cada pessoa como foco principal da sua atividade assistencial, olhando para Cristo como modelo da humanidade redimida. Assim, terão de zelar para que aqueles que trabalham nas suas valências vejam reconhecidos os seus direitos laborais e lhes seja pedido que exerçam as suas profissões no respeito pela dignidade de cada utente, porque um ser humano será sempre um fim e nunca um meio ou um instrumento para atingir determinado objetivo.
Do mesmo modo, os utentes das Misericórdias, novos ou velhos, devem ser olhados como um outro igual em dignidade ao qual, pela graça batismal, sou chamado a tratar como um irmão, colocando-me sempre na disponibilidade de o carregar e de lhe tratar as feridas (cf. Lc 10,25-37).
Sem as Misericórdias, a Cáritas, as Fundações, os Centros Sociais Paroquiais e outros, a sociedade civil ruiria. Honrando o nome que temos, que sejamos rosto de misericórdia, capazes de estar sempre ao lado dos pobres, dos fracos e dos oprimidos.
+ José Manuel Cordeiro
Arcebispo Metropolita de Braga
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