Arquidiocese de Braga -
8 junho 2026
Opinião
O Recolhimento das Beatas de Santo António
O mais popular santo português é, porventura, Santo António, venerado intensamente, não apenas em todo o território português, mas em todos os lugares da Cristandade. A cidade de Braga, apesar de vinculada singularmente a São João Baptista, chegou a exibir um número significativo de espaços vinculados ao taumaturgo lisboeta.
Além da Capela de Santo António dos Esquecidos, anexada à Capela dos Coimbras em 1706 e demolida em 1926; da rua de Santo António das Travessas, onde chegou a existir um popular nicho em sua honra; dos azulejos setecentistas alusivos à sua vida, que revestem o interior da Igreja da Penha de França; ou do singular culto que lhe é dedicado na Igreja dos Terceiros; a cidade de Braga detinha um autêntico complexo antoniano, no espaço compreendido entre a Praça Municipal e o Campo da Vinha, correspondendo sensivelmente ao lado nascente da atual rua de Santo António da Praça e uma parcela do antigo Campo dos Touros.
Nesta área, além do Postigo de Santo António, presumivelmente datável do final do século XIV (Ribeiro, 2008), localizado sensivelmente a meio da atual rua de Santo António da Praça, surgiria, em meados do século XVI, uma capela, com a mesma designação da rua, voltada ao antigo Campo dos Touros, que seria demolida em 1949, em virtude da abertura da atual rua Eça de Queirós. O derradeiro espaço devotado a este popular orago foi o Recolhimento das Beatas de Santo António, que haveria de ser instituído no gaveto com o Campo da Vinha, no derradeiro quartel do século XVI.
No decorrer da Idade Moderna, a cidade de Braga assistiu à fundação de algumas instituições religiosas femininas, cujo objetivo fundamental era a proteção, educação ou reabilitação de mulheres, através de uma vida de clausura, oração e trabalho. Assemelhando-se aos conventos na sua estrutura funcional e até arquitetónica, distinguiam-se destes, não apenas devido à sua finalidade, mas principalmente pela ausência de um vínculo formal a uma ordem religiosa. Apesar da existência de uma regra de vida, que implicava uma reclusão do mundo exterior, as recolhidas não tinham um imperativo de profissão religiosa, nem tão pouco estavam sujeitas a um recolhimento perpétuo.
Instituídos a partir da iniciativa individual de sacerdotes ou de leigos, na cidade de Braga chegaram a existir, na sua fase mais fulgente, seis recolhimentos (Penha, Convertidas, Caridade, Tamanca e Teresinhas), todos exibindo fundamentos e missões distintas, tendo alguns deles sido depois convertidos em conventos. Um deles era o Recolhimento das Beatas de Santo António, também conhecido como Recolhimento de Santo António do Campo da Vinha, que terá sido a primeira instituição deste género a ser instituída na cidade de Braga.
Ocupando um conjunto de edifícios localizados no gaveto do Campo da Vinha com a atual rua de Santo António da Praça, surgiu por iniciativa do padre Domingos Peres, no ano de 1588, sendo vinculado à Misericórdia de Braga, na sequência de um legado em testamento concretizado em 1608. Apesar da instituição ter sido oficializada em 1588, sabemos que o recolhimento já se encontrava em funcionamento desde 1574, tendo o seu mentor adquirido as casas para o instalar a 2 de julho de 1572 (Tavares, 1998).
Tendo deixado inúmeros bens e rendas de forma a garantir o sustento da instituição, Domingos Peres haveria de vincular o seu recolhimento à Ordem Terceira franciscana, regra que inspiraria o normativo que as recolhidas deveriam obedecer.
Contíguo ao Postigo de Santo António, passagem medieval que seria demolida na década de 1780, o recolhimento, não apenas absorveu o seu orago, como também se apropriaria da sua estrutura, tal como refere João Baptista Vieira Gomes, no início do século XIX, referindo que o Recolhimento ocupava “na sua capacidade, a extensão do postigo de Santo António” (Machado, 2014), facto que estará associado às sucessivas obras de alargamento de que seria alvo.
Segundo Albano Belino, o recolhimento estava destinado a acolher “seis mulheres donzelas ou viúvas” (Belino, 1900), no entanto iria sofrer obras de ampliação, nomeadamente em meados do século XVIII (Castro, 1999), que aumentariam significativamente a sua lotação.
Apesar de ter sobrevivido ao decreto de extinção das ordens religiosas, que sentenciaria muitas instituições da mesma natureza, o recolhimento entraria em declínio no final do século XIX. Em 1885, os edifícios do recolhimento seriam expropriados pela Câmara Municipal de Braga, “a fim de ser efetuado o alargamento da rua de Santo António da Praça” (Castro, 1999).
Após a expropriação do edifício, as recolhidas passariam para umas casas da Misericórdia na rua do Poço e depois para o Palácio do Raio, então integrante do Hospital de São Marcos (Machado, 2014). O Recolhimento das Beatas de Santo António haveria de ser extinto em 1911, após a promulgação republicana da Lei da Separação.
O instituidor
O instituidor do Recolhimento das Beatas de Santo António foi o padre Domingos Peres, que era, desde 1570, Abade da Igreja paroquial de São João de Balança, atualmente no concelho de Terras de Bouro. Este sacerdote, habitualmente designado como “licenciado”, estudou cinco anos na Universidade de Salamanca, onde se licenciou em Artes e Teologia, tendo lecionado sido “Mestre de Matemáticas” durante duas décadas, tendo-se contado entre os seus alunos “os sobrinhos do Infante Dom Henrique” e também “Dona Catarina de Bragança” (Castro, 1999), além da Princesa D.ª Maria, filha do rei D. Manuel I e de Dona Leonor (Tavares, 1998). Segundo Pedro Vilas Boas Tavares, o padre Domingos Peres foi uma “pessoa de saber reconhecido na sua época” (Tavares, 1999). Além de ter sido capelão do Duque de Bragança, o instituidor foi também autor de algumas obras de Astronomia e Matemática, como, por exemplo, “Tratado de música e aritmética em linguagem” e também a tradução dos “Seis Livros de Euclides”. Irmão de várias confrarias e irmandades, entre as quais a Misericórdia de Braga, haveria de falecer em 1608, deixando o seu Recolhimento em legado à Santa Casa da Misericórdia de Braga, instituição à qual já se havia vinculado através de outros benefícios, nomeadamente a obrigação de sufrágios por sua alma e o compromisso de ser sepultado debaixo do púlpito da Igreja da Misericórdia (Castro, 1999).
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