Arquidiocese de Braga -
30 junho 2026
Opinião
A Música Sacra entre Liturgia e Cultura
João Duque
No rescaldo do Ciclo de Música Sacra em Rates
A música sacra, seja no seu património histórico, seja na contínua produção contemporânea, representa sem dúvida um dos campos de maior cruzamento entre a vida das comunidades eclesiais, sobretudo através da liturgia, e o contexto cultural em que se envolvem. Algumas das realizações musicais mais elevadas da história situam-se, claramente, nesse campo. E, atualmente, executantes e compositores de elevadíssimo nível continuam a dedicar a sua arte a esse género musical.
Em Portugal, ao longo da história, conhecemos momentos especialmente intensos e de grande repercussão internacional, neste campo. A denominada polifonia clássica, dos séculos XVI e XVII, é disso talvez o exemplo mais significativo. Também conhecemos momentos de crise e de alguma miséria musical, devido a vários fatores. Tendo em conta as transformações do ensino da música, ao longo das últimas décadas, podemos assumir que, atualmente, estamos perante uma geração jovem das mais preparadas da nossa história, musicalmente falando. Aliás, o país tem sido pequeno – em vários sentidos – para acolher músicos tão bem formados e talentosos.
Como seria de esperar, isso reflete-se também na produção e execução de música sacra. Não necessariamente em todas as celebrações litúrgicas, que são de qualidade muito desigual, mas em muitas realizações culturais, nomeadamente em concertos. É claro que esse movimento se reflete também em liturgias de elevada qualidade musical, quando há cuidado com isso.
É imenso já o conjunto de ciclos de música sacra, como os ciclos de órgão ou de música coral, que apresentam repertório antigo e composições contemporâneas, algumas em primeira audição. O seu significado é, ao mesmo tempo, eclesial e cultural, seguindo uma boa tradição da Igreja, que nunca separou artificialmente esses campos.
Um dos exemplos salientes dessas realizações é o Ciclo de Música Sacra que se realiza, anualmente, na igreja românica de Rates, há precisamente 20 anos. A vigésima edição decorreu entre os dia 26 de abril e 4 de junho de 2026.
A programação iniciou-se com um encontro de coros paroquiais da região, estabelecendo com isso uma relação próxima com a liturgia dominical das comunidades eclesiais. Inclui também conferências de formação sobre a música sacra. Mas, sobretudo, esteve recheada de excelentes concertos, por parte de grupos e instrumentistas profissionais, preponderantemente jovens.
Destacou-se a intervenção, que tem sido regular, do Coral Ensaio, que constitui uma espécie de coral “residente” deste ciclo, sob direção de Tiago Carriço. Mas também o concerto do Misericordiae Ensemble, da Misericórdia de Vila do Conde, sob direção de André Bandeira, com o organista e compositor Daniel Sousa. De assinalar ainda uma interessante experiência com o BJazz Choir de Guimarães, sob direção de Tiago Simães. E muitos outros participantes puderam ser ouvidos ao longo dos muitos concertos.
O Ciclo é claramente
o espelho do que de melhor se faz em música sacra no nosso país, e também na nossa Arquidiocese, podendo inspirar celebrações com cada vez maior qualidade musical. Mas também contribui para a fruição e elevação cultural das populações, independentemente da sua relação com a vida eclesial. Ao mesmo tempo, vem revelando, ao longo dos anos, aquilo que os jovens músicos conseguem fazer neste campo, e que não é pouco.
Ficamos, por isso, a aguardar a 21.ª edição do Ciclo, que certamente acontecerá pelas mesmas datas. É claro que estas iniciativas exigem perseverança e muita dedicação dos organizadores, a quem agradecemos aquilo que nos oferecem. Mas o resultado compensará certamente todas as canseiras.
João Manuel Duque
Diretor do Departamento Arquidiocesano de Música Sacra de Braga
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