Arquidiocese de Braga -
19 julho 2026
Saber viver em Cristo
Homilia de D. José Cordeiro - Ordenações presbiterais, Sé Primaz – 19.07.2026
1.Resposta(s) ao chamamento
Caros Bruno, Carlos e Diogo começo por vos fazer uma pergunta: ainda vos lembrais do momento em que sentistes o chamamento de Jesus Cristo para abraçardes a vocação sacerdotal? Deveis recordá-lo sempre, porque ele vos ajudará a recentrar no essencial da missão que ides assumir. Ademais, todos os dias serão dias para renovar as vossas promessas quer as já assumidas na ordenação diaconal, quer as que ides fazer nesta ordenação presbiteral.
Ser Presbítero é um dom da graça de Deus, dádiva que nos é concedida muito além dos nossos méritos e capacidades. Dom que é para ser vivido na entrega total no serviço à Igreja e aos irmãos. É um bem que não pode ser guardado para nós e que não pode ser vivido isoladamente, mas sim na relação com as pessoas às quais somos enviados, e com o Bispo e os Presbíteros na fraternidade sacramental do Presbitério.
Hoje, é dia de gratidão e de peculiar oração pelas vocações. A Igreja precisa de pastores e de fiéis leigos servidores criativos e credíveis do Evangelho. A propósito, na igreja de São João do Souto iniciamos a adoração eucarística perpétua, no passado dia 4 de junho, dia do “Corpo de Deus”, para desafiar a coragem do essencial. Porque não chamar mais crianças, adolescentes, jovens e adultos para este encontro pessoal, confiante, adorante e esperançoso de formação presencial e vida espiritual? Ao menos pergunta-te: para quem sou eu? O que posso fazer pelo Evangelho? Jesus Cristo “CHAMA.te”.
Com a Ordenação sacramental, a Liturgia oferece à formação inicial um claro critério de discernimento e, para a formação permanente, a postura a manter ao longo de toda a vida. Alguém é ordenado Presbítero, mas para se tornar pastor segundo o Coração de Jesus Cristo será necessária uma vida inteira. Uma missão tão desafiante como fascinante.
No momento ritual da apresentação e eleição dos candidatos. A Igreja local pede ao Bispo, diante do povo, que os ordene: «Sabeis se eles são dignos?». «Segundo o testemunho do povo cristão e o parecer dos responsáveis que o apresentam, atesto que foram considerados dignos». Aclarando, o diálogo poderia soar assim: «Tens a certeza de que ele tem vocação para o ministério?». Após o diálogo, o Bispo exprime a sua decisão: «Com o auxílio de Deus e de Jesus Cristo nosso Salvador, escolhemos este nosso irmão para a Ordem dos presbíteros».
O termo dignus, dignitas expressa a dignidade do mistério presbiteral: ser adequado, ser conveniente, estar em conformidade, ter autoridade moral para a tríplice missão do governo, do culto e da evangelização. Pela imposição das mãos dos Bispos e dos Presbíteros, transmite-se o inestimável dom da graça para saber viver e ter vida em Jesus Cristo. O Arcebispo São Bartolomeu dos Mártires, cuja memória ontem celebramos, testemunhou com a humilde autoridade da dignidade: «grande coisa é saber viver!»
2.Transparecer a humanidade em Cristo
Como para todas as outras pessoas, também a vida de um Presbítero é marcada pelo trigo e pelo joio, pelo gão de mostarda e pelo fermento, pelas capacidades e pelas fragilidades, pelas alegrias e pelas tristezas. Começando hoje a vossa vida como presbíteros, tereis de certeza expetativas e sonhos sobre o modo como viver o sacerdócio. As pessoas a quem sois enviados também terão expetativas em relação a vós. Por isso, deixo-vos um primeiro alerta: tende cuidado para não viverdes o vosso sacerdócio em função das expetativas criadas quer por vós, quer em relação a vós, porque isso é caminho fácil para a desilusão, uma vez que a realidade nem sempre confirma essas mesmas expetativas.
Nas três parábolas escutadas, Jesus ensina que todos somos chamados a ser testemunhas do Reino de Deus no meio do ambiente e da cultura em que nos inserimos. Só assim podemos alargar os horizontes da missão de “levar Jesus a todos e todos a Jesus”. Somos criados, chamados, amados e não podemos viver sem amor. Nós somos convidados a ser fecundos, a ser pão. Não será o Evangelho a mudar, mas o nosso modo de o compreender e de o viver com sabedoria e paciência.
Ser Presbítero é deixar transparecer na nossa humanidade, frágil e ao mesmo tempo magnífica, a imagem de Cristo, sumo e eterno sacerdote. Ele semeia a boa semente da Palavra em nós e nos nossos irmãos. A nossa missão é contribuir para que essa semente possa germinar e frutificar, mesmo no meio da ambiguidade e complexidade da vida.
Para que consigais uma cada vez maior configuração a Jesus Cristo, e para que sejais capazes de responder aos desafios do tempo complexo em que vivemos, ajudando a semente que Deus semeia no coração das pessoas a frutificar, há algumas coisas que não podeis esquecer no vosso dia-a-dia.
Para alcançar o equilíbrio certo na vida, o bom senso do pastor, um Presbítero deve antes de mais ter uma vida espiritual cuidada, com momentos diários de oração e não descurando os encontros frequentes com o diretor espiritual. A relação com o Senhor é a fonte que vai alimentar tudo o resto.
A vocação-missão supõe sempre um envio. No entanto, o envio missionário não é isolado, mas em fraternidade e comunhão, ao menos de dois ou três. Sim, discípulos missionários em comunhão com Cristo, com a Igreja e com a “humanidade da humanidade”.
Antes de tudo, o ministério presbiteral apresenta-se, não como uma função, uma tarefa, uma promoção social ou religiosa, mas como um serviço a tempo inteiro que se constitui mediante a ordenação sacramental. Efetivamente, a sacramentalidade é, hoje, o rasgo mais específico do presbítero. Eis o grande mistério, do qual os presbíteros foram feitos ministros, porque se trata da participação no único sacerdócio de Jesus Cristo, no mistério de um amor sem limites, aquele da máxima sacerdotalidade na cruz (o mistério pascal).
Não faltarão, certamente, dificuldades pastorais, angústias e cansaços, nem sempre equilibrados com sadios períodos de retiro espiritual e de justo repouso. A cultura contemporânea tende também a desfigurar o presbítero da sua essencial dimensão mistérico-sacramental, que faz cair nos perigos do ativismo, do funcionalismo, e da planificação mais empresarial do que pastoral. Dizei ‘não’ ao individualismo na vida e na ação pastoral. Não nos isolemos, porque perdemos o sentido do presbitério e o sentido eclesial.
3.Descanso e vida ordenada
O Presbítero é aquele que ao mesmo tempo é capaz de acolher os que vêm ao seu encontro, e capaz de sair de si para ir em busca das ovelhas perdidas e tresmalhadas. Isto implica que saibamos conhecer a realidade concreta à qual fomos enviados, sem a querermos transformar à nossa imagem, com a consciência de que não sabemos tudo, e que as próprias pessoas com quem contactamos, sobretudo as mais simples, têm muito para nos ensinar. Assim, a formação contínua e o estudo são também fatores importantes para terdes as ferramentas necessárias para responder aos desafios com que vos deparareis no exercício do ministério presbiteral.
Além disso, o cuidado para com o outro implica por vezes vencermos as nossas resistências internas, o que exige zelo e abnegação na missão pastoral. Não há vidas simples; não há vidas sem dificuldades; e as relações humanas serão sempre desafiantes, pelo que surgirão dificuldades, mas essas não vos podem fazer desanimar nem desistir.
Parafraseando um grande maestro, Herbert von Karajan: «o primeiro dever do maestro é não atrapalhar a orquestra». Lembrem-se disso no serviço que vos for confiado e façam-no em espírito sinodal e missionário.
Não estais sozinhos. O moderador para a vida pastoral é alguém a quem podereis recorrer para esclarecer dúvidas e pedir conselhos, tal como a outros padres amigos, aos serviços da Cúria Arquidiocesana e até ao Arcebispo.
Para ultrapassar as dificuldades é também importante que não descureis o descanso pessoal, com uma vida organizada e regrada, que garanta espaços e momentos para esse descanso, o qual também se alcança através do convívio com a família e com as ditas amizades significativas, dentro e fora do presbitério.
Ser Presbítero no séc. XXI continua a ser belo, ainda que desafiante. A Palavra que ilumina o mistério do vosso ministério traduz a intensidade e profundidade da entrega: «A lâmpada de Deus não se apagou» (paráfrase de 1Sm 3,3 – Bruno Pinto) e Ele continua a amar o mundo por Ele criado; «Não fostes vós que me escolhestes, fui Eu que vos escolhi» (Jo 15,16 – Diogo Antunes); Ele escolheu-vos, porque viu em vós algo que Ele precisa para a construção do Seu reino e para serdes «servidor[es] da vossa alegria» (Cf. 2Cor 1,24 – Carlos Furtado).
Jesus Cristo não pode ocupar apenas um lugar importante ou decisivo na nossa vida, mas o total centramento. Ele é o centro vital, o mistério palpitante; caso contrário, será apenas mais um no coração do nosso ministério. Jesus Cristo pede a frescura do primeiro amor, isto é, a lógica e a linguagem do absoluto do amor. Jesus Cristo é quem te faz sonhar?
O Senhor nos conceda a fidelidade do coração, para que o amor vença agora e por toda a eternidade e a prioridade seja o Evangelho da Esperança.
+ José Manuel Cordeiro
Arcebispo Metropolita de Braga
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