Arquidiocese de Braga -

3 setembro 2026

Opinião

Padre Jerónimo: a missão continua.

Em abril passado, depois de celebrar a Páscoa e de ter visitado os seus familiares na sua terra natal, o padre Manuel Jerónimo Nunes, missionário da Boa Nova, foi surpreendido por um AVC no Seminário das Missões em Cucujães (Oliveira de Azeméis) onde residia, tendo sido levado para o hospital de São Sebastião em Santa Maria da Feira de urgência, onde permaneceu cerca de dois meses. Aquele homem que durante décadas percorreu centenas de milhares de quilómetros (sobretudo no Brasil, de ónibus), atravessou oceanos e continentes, visitou comunidades recônditas, comeu à mesa dos pobres e fez da sua vida uma missão, de um momento para o outro, deixou de poder falar, de andar e de se relacionar com o mundo como anteriormente o fazia.

Agora, encontra-se em recuperação no Lar de Santa Teresinha em Cucujães. Lentamente, está a ganhar consciência de si e do mundo ao seu redor como se tratasse de um milagre: já consegue falar, andar acompanhado, ler e já reconhece, com maior ou menor dificuldade, as pessoas com quem trabalhou e conviveu.

Quando fui visitá-lo ao hospital, nos primeiros dias de maio, assaltou-me uma pergunta: será que um missionário deixa de o ser quando já não pode falar, nem caminhar, nem interagir de forma consciente com o mundo?

Nascido na Demoura em Santa Ana da Azinha (Guarda) há 81 anos, filho de lavradores, desde cedo conheceu a vida do campo. Aos seis anos guardava vacas; aos dez entrou no seminário. Tímido e pouco à vontade em grandes grupos, foi descobrindo, nos escuteiros e nos círculos missionários, uma capacidade nova de se relacionar com o mundo. Aos dezoito anos percebeu que queria ser padre «onde fosse mais necessário».

Foi esse desejo que o levou à Sociedade Missionária da Boa Nova e, pouco depois da sua ordenação sacerdotal em 1969, ao Brasil. Ali permaneceu durante 25 anos. Foi «herói do sertão», como lhe chamaram, trabalhando com lavradores, formando leigos e ajudando a criar centenas de equipas para que as comunidades pudessem celebrar a fé em Jesus Cristo mesmo sem a presença de um sacerdote. Durante dez anos, coordenou a Comissão Pastoral da Terra em Minas Gerais, colocando a Igreja ao lado dos mais pequenos, dos sem-terra, dos povos indígenas, daqueles, cuja voz dificilmente chegava aos centros de decisão. Em 1994, regressou a Portugal, tendo sido eleito Superior Geral e reeleito em 1998 para mais um mandato de quatro anos.

O padre Jerónimo nunca entendeu a missão reduzida à transmissão da Boa Nova através de palavras ou discursos, como se as pessoas fossem sujeitos passivos a quem se lhes dá fórmulas prontas, tantas vezes encriptadas em linguagens canónicas ou estéreis, incapazes de fazer acender e aquecer corações. Para ele, a missão começava pelo verbo escutar. Escutar o lavrador que perdera a terra. Escutar o índio que guardava uma memória de duzentos anos. Escutar as comunidades que viviam esquecidas no sertão. Escutar as comunidades macuas de Malema, em Moçambique, onde se demorou, entre os anos de 2010 e 2014, e que procuravam aprofundar o sentido da sua fé. E continuava com o verbo permanecer: através de um trabalho incansável, de ações concretas em prol da justiça social, da melhoria das condições de vida e da incarnação de Cristo nos corações daqueles com quem contactava.

O padre Jerónimo sonhava com uma Igreja sem muros. Uma Igreja capaz de atravessar fronteiras, geográficas e não geográficas, de criar pontes e de reconhecer Cristo onde tantas vezes não O procuramos. Uma Igreja presente no rosto dos pobres, aberta a «todos, todos, todos», livre de preconceitos e capaz de se deixar conduzir pelo Espírito Santo. Não é de estranhar, por isso, que os Papas João XXIII e Paulo VI fossem as suas grandes referências e influências da juventude, e que, mais tarde, já no Brasil, o teólogo Gustavo Gutiérrez (1928-2024), fundador da denominada Teologia da Libertação, se tornasse também uma influência importante.

O padre Jerónimo sonhava com uma Igreja em que os leigos não fossem meros espectadores ou serviçais do clero, mas operadores da missão. O seu trabalho no Brasil é testemunho desta forma concreta de entender e ser Igreja, assim como o trabalho que desenvolveu junto dos Leigos Boa Nova depois de ter deixado de ser Superior Geral.

Agora, o padre Jerónimo está lentamente a reorganizar-se, a reencontrar o mundo. E seria tão bom se recuperasse totalmente!

Porém, a missão continua.

Continua na imagem do seu rosto. Porque, paradoxalmente, continua a poder ser «mediador de luz» numa sociedade de imagens fabricadas, falsas e artificiais, tal como foi o leproso para São Francisco de Assis (Papa Francisco, Lumen Fidei, n.º 57) e tantos outros leprosos para o próprio padre Jerónimo. Se compreendermos o mistério do seu rosto que sofre, talvez possamos ver nele o próprio rosto de Cristo «que, tendo suportado a dor, Se tornou «autor e consumador da fé» (Heb 12, 2).

E continua naqueles que ele ajudou a formar. Em mim e talvez em ti. Nas comunidades que ajudou a despertar, nos leigos a quem ensinou a assumir responsabilidades, nos missionários que aprenderam com ele que evangelizar é escutar, acompanhar, cortar amarras, arriscar e servir. Continua, sobretudo, no sonho de uma Igreja que não se fecha dentro das suas próprias paredes, mas sai ao encontro de todas as pessoas, sobretudo das mais frágeis e marginalizadas.

Padre Jerónimo, a missão continua.

 

Sérgio Cabral, professor de EMRC e membro do CMAB

 

* Para além do conhecimento que tenho do padre Jerónimo há mais de 30 anos, este artigo nasce também das suas “Memórias Soltas”, publicadas no site da Associação Regina Mundi (arm.boanova.pt), por ocasião do seu 50.º aniversário sacerdotal, em 2019.