Arquidiocese de Braga -

25 setembro 2026

Passar «da informação à proposta»

Fotografia DACS

DACS

Conversa com D. Alexandre Palma e João Miguel Tavares nas Jornadas Nacionais de Comunicação Social

Um dos principais momentos do programa das Jornadas Nacionais de Comunicação Social, que se realizaram ontem no Seminário de Leiria, foi a conversa “Reaprender a arte de conversar”, entre D. Alexandre Palma, presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais, e o jornalista e escritor João Miguel Tavares.

D. Alexandre Palma defendeu que a comunicação da Igreja precisa de passar «da informação à proposta», evitando ficar excessivamente presa à divulgação de acontecimentos, à agenda das instituições ou à reação perante crises e escândalos.

«Não estamos a pôr tantas fichas numa comunicação propositiva, que abra caminhos, que conte histórias e que não esteja demasiado tomada pela agenda do curto prazo», afirmou.

O bispo considerou que uma comunicação centrada quase exclusivamente na informação podia ser suficiente num contexto social em que o cristianismo era transmitido pela família, pela escola e pela cultura. Numa sociedade pós-cristã, esse modelo já não chega.

Para D. Alexandre Palma, o Evangelho é «mais do que informação» e deve ser comunicado como uma palavra capaz de formar, interpelar e transformar a vida.

João Miguel Tavares afirmou, por sua vez, que a Igreja possui uma mensagem com uma enorme capacidade de atração.

«Jesus e os Evangelhos têm uma popularidade gigantesca. A Igreja é muitas vezes atacada, mas a palavra do Evangelho e a figura de Jesus não são verdadeiramente atacadas por ninguém», declarou.

Na sua perspetiva, quando a Igreja é criticada, isso acontece frequentemente porque os cristãos ficam aquém da mensagem que anunciam. O problema não está no Evangelho, mas na forma como é vivido e comunicado.

O jornalista alertou também para uma comunicação eclesial desenvolvida a partir de uma posição defensiva, mais preocupada em reagir aos problemas da instituição do que em apresentar uma proposta de vida.

«Comunicar a Igreja é comunicar exemplos. É comunicar os melhores exemplos da Igreja», sustentou.

D. Alexandre Palma acrescentou que esses exemplos não devem ser histórias artificiais de perfeição, mas vidas concretas, atravessadas por feridas, fracassos, vulnerabilidades, conversões e recomeços.

«Precisamos de histórias reais: de gente ferida, de gente vulnerável, de gente a quem não correu tudo bem, mas cuja vida fez sentido dentro desse fracasso», afirmou.

Rupnik: sofrimento das vítimas e valor da obra

A conversa abordou de forma desenvolvida a controvérsia em torno da obra de Marko Rupnik no Santuário de Fátima.

O artista esloveno e antigo jesuíta, acusado por várias mulheres de abusos sexuais, espirituais e de consciência, dirigiu a execução do grande painel de mosaico existente no presbitério da Basílica da Santíssima Trindade.

João Miguel Tavares manifestou-se favorável à manutenção da obra visível e disse esperar que o Santuário não recue perante as pressões para a sua ocultação.

«Fico muito contente e espero que o Santuário de Fátima se mantenha firme na decisão de não tapar aquilo», afirmou.

O jornalista começou, contudo, por reconhecer o sofrimento que a presença do painel pode provocar nas vítimas de abusos.

«Percebo perfeitamente que uma vítima de abusos possa entrar naquela basílica, olhar para aquele mural e sentir uma profunda dor», declarou.

Ainda assim, considerou que ocultar a obra não resolveria a complexidade do problema e poderia transmitir uma imagem falsa da Igreja, como se esta fosse constituída apenas por pessoas irrepreensíveis.

«Somos uma comunidade de pessoas pecadoras e com falhas profundas», afirmou João Miguel Tavares.

Na sua perspetiva, uma obra pode conservar valor artístico e espiritual apesar dos atos atribuídos ao seu autor.

O jornalista defendeu que a Igreja deve ser capaz de reconhecer simultaneamente a gravidade do mal, o sofrimento das vítimas e a possibilidade de uma pessoa profundamente marcada pelo
pecado ter produzido uma obra na qual outros encontram uma expressão do sagrado.

João Miguel Tavares relacionou esta questão com a própria história cristã, marcada pela possibilidade de conversão e de uma última palavra de salvação. Evocou o episódio do bom ladrão e a promessa de Jesus – «Hoje estarás comigo no Paraíso» – como uma das passagens do Evangelho que mais o comovem.

A possibilidade de redenção, advertiu, exige arrependimento e não pode servir para desvalorizar o mal cometido ou o sofrimento das vítimas.

Obriga, porém, a Igreja a resistir a leituras que dividem as pessoas apenas entre puras e irremediavelmente condenadas.

D. Alexandre Palma reconheceu a complexidade do debate. «Sem entrar no mérito do caso, que é complexo, não me parece possível ter uma resposta simplista, de um lado ou do outro», afirmou.

O presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais retirou do caso uma conclusão mais ampla: contar bons exemplos não significa apresentar apenas figuras perfeitas. A história cristã está cheia de quedas, confissões, conversões e recomeços. DACS