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João Duque | 28 Set 2017
A propósito de uma "correcção"
Superou-se a ideia quase fixa de que quem defende o papa é “conservador” e quem o critica é “progressista”.
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Foi tornada pública, nos dias passados, uma autodenominada “correcção” à “Amoris Laetitia” do Papa Francisco, assinada por um grupo de teólogos. Trata-se de um texto complexo, que não permite um comentário breve, muito menos em contexto jornalístico. Da minha parte, apenas extrairei desse texto – independentemente do contexto e mesmo das personalidades que o assinam, pois não me cabe fazer juízos – alguns elementos que me parecem merecer reflexão e que, nesse sentido, não deixam de ser “positivos”.

Já agora, antes de entrar nesses elementos, devo manifestar estranheza pelo próprio título: chamar pomposamente à apresentação de um posição diferente – mesmo contrária – à do Sumo Pontífice uma “correção” pressupõe que quem corrige é detentor de uma verdade absoluta e final. É claro que é isso que pretende precisamente esse texto; mas também é claro que aí reside um dos seus maiores problemas. Não quero, contudo, fixar-me nessa questão, pois levaria demasiado longe – e provocaria, certamente, muitas correcções...

Há algo inquestionável neste acontecimento. Sim, porque uma carta aberta a pretender corrigir um Papa, apresentada por um grupo de teólogos que inclui alguns membros destacados do magistério da Igreja, é sem dúvida um acontecimento raro. E é praticamente inédito, quando esse grupo pertence ao que se costuma denominar a “ala conservadora da Igreja”. Tradicionalmente, um dos grandes recursos argumentativos dessa “ala” – peço desculpa pela nomenclatura, pois sei que é simplista – é precisamente a autoridade papal. Nesse sentido, o “fenómeno” Papa Francisco provocou algo que me parece positivo para o futuro da Igreja – todos assumem que um Papa possa ser criticado em algumas das suas posições (seja por “progressistas” seja por “conservadores”), sem que isso seja uma heresia, e que um Papa possa ser razoavelmente defendido (por uns e por outros), sem que isso seja falta de inteligência. Superou-se a ideia quase fixa de que quem defende o papa é “conservador” e quem o critica é “progressista”. Isso vem aliviar a nossa relação ao papado, o que é claramente positivo.

Na sequência deste primeiro elemento, há um outro igualmente benéfico. No texto deixa-se muito claro que nem tudo o que um Papa diz está sujeito ao dogma da infalibilidade papal. Consoante o nível do que é dito, terá um peso diferente do ponto de vista doutrinal. Na maioria das vezes, vale o que vale, pela autoridade da pessoa, mas não necessariamente pela autoridade papal em sentido estrito, usada para afirmação de uma verdade de fé. É pois salutar que nos habituemos a ler os documentos dos Pontífices de acordo com o estatuto que possuem e que é diferenciado. Isso não retira peso ao que um Papa diz ou escreve, mas recorda que nem tudo deve ser lido ou escutado do mesmo modo. E é bom que isso se aplique a todos os Papas, não apenas ao Papa Francisco.

É claro que tudo isto não invalida um terceiro elemento: que tudo o que está em jogo no “acontecimento” desta carta é muito sério e implica cuidado. Não basta dizer que se trata de um grupo radical, que não deve ser levado a sério, pois representa uma minoria na Igreja, já “ultrapassada”. Penso que muitos dos assuntos apresentados neste texto – e que não se relacionam, simplesmente, com a questão da admissão à comunhão dos divorciados “recasados” – revelam que convivem, na Igreja atual, paradigmas teológicos muito diferentes, relativamente a muitas coisas – como por exemplo, à noção de Revelação ou de Natureza, a que se liga a noção das respetivas “leis”. E o debate entre esses diferentes paradigmas não se processa com facilidade. Mas talvez deva ser feito – pelo menos tentado. O Papa Francisco não terá problemas em ser criticado; também não me parece que tenha uma noção exacerbada da sua “infalibilidade”. Poderá, talvez, promover um debate mais fundo entre os paradigmas em jogo. Esse debate pode não conseguir consenso. Mas, pelo menos, talvez possa ser mais fértil do que a publicação de “correções” e eventuais “correcções de correcções”; certamente será mais fértil do que uma primária acusação de heresia ou do que uma implícita ameaça de cisma. Haja, sobretudo, bom senso.

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