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DACS com VN | 5 Mar 2018
Cardeal Kasper: "Chega de acusações de heresia"
Cardeal afirma que a doutrina da indissolubilidade do matrimónio não foi colocada em discussão pelo Papa Francisco.
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  © DR

Por ocasião dos seus 85 anos de idade, o Cardeal Walter Kasper, Presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, irá apresentar amanhã, em Roma, o seu último livro intitulado “A Mensagem de Amoris Laetitia: uma discussão fraterna”.

Tendo em conta o lançamento e apresentação do livro, o Cardeal Kasper concedeu ao portal Vatican News (VN) uma entrevista sobre o debate que a Exortação Apostólica lançou, bem como as suas consequências positivas para as famílias.

 

(VN): Nas primeiras páginas do seu livro, o Cardeal frisa que a Amoris Laetitia (AL) não é uma doutrina nova, mas antes uma renovação criativa da tradição. O que significa isto?­
(WK):  A tradição não é um lago estagnado, mas é como uma fonte, um rio: uma coisa viva. A Igreja é um organismo vivo e a sempre válida tradição católica também deve ser inserida nas situações actuais. Este é o sentido da renovação de que nos falou o Papa João XXIII.

(VN): O subtítulo do livro é “Uma discussão fraterna”. Também disse que não devemos ter medo das discussões, mas acrescentou que “também não devem existir sinais de heresia”. O que nos pode dizer sobre as diversas críticas feitas depois da publicação da AL?
(WK): Antes de mais, gostaria de dizer que os debates na Igreja são necessários. Não devemos temer as discussões. Mas neste momento há um debate amargo, demasiado forte, com acusações de heresia. A heresia é um comportamento que nega um dogma proposto. A doutrina da indissolubilidade do matrimónio não foi colocada em discussão pelo Papa Francisco. Antes de afirmar que se trata de heresia, é preciso perguntar sempre como é que o outro entende a nossa afirmação. E, acima de tudo, deveria ser pressuposto que a outra pessoa é católica, o contrário não deve ser suposto!

(VN): Sobre a nota nº 351 da Amoris Laetitia, sobre a aproximação dos divorciados e recasados aos Sacramentos, o Cardeal afirma que essa alínea deveria ser vista à luz do Decreto sobre a Eucaristia do Concílio de Trento. Porquê?
(WK): O Concílio de Trento diz que, se não houver pecado grave, mas de natureza venial, a Eucaristia remove o pecado. Pecado é um termo complexo. Não só inclui um conceito objectivo, mas também leva em consideração a intenção, a consciência da pessoa. Isto carece de uma avaliação a nível de foro interno — no Sacramento da Reconciliação — se há realmente um pecado grave, venial, ou nenhum. Se for apenas um pecado venial, a pessoa pode ser absolvida e participar no Sacramento da Eucaristia. Isto corresponde à doutrina de João Paulo II e, neste sentido, o Papa Francisco encontra-se em completa continuidade da direcção encetada por outros Papas. Logo, não vejo motivo nenhum para dizer que isto é uma heresia.

(VN): Na sua opinião, qual é o maior contributo que a AL pode dar às famílias de hoje? Como pode ser inserida na vida diária das famílias?
(WK): Conheço algumas paróquias, mesmo aqui em Roma, que organizam encontros com casais que se preparam para o matrimónio. Muitos deles lêem alguns textos desta Exortação pós-Sinodal. A linguagem deste documento é tão clara que qualquer cristão consegue entendê-la. A maioria está satisfeita com este documento porque dá espaço à liberdade, mas também porque interpreta a substância da mensagem cristã em linguagem compreensível. Logo, o Povo de Deus entende! E o Papa tem uma óptima ligação com o Povo de Deus.

(VN): Na primeira oração do Ângelus como Papa, Francisco expressou apreço pelo seu livro intitulado “Misericórdia”. Por que acha que a misericórdia é tão importante neste Pontificado, sobretudo no que diz respeito ao mundo das famílias?
(WK): Hoje vivemos tempos de violência como nunca antes vimos. Muitas pessoas estão feridas. Também na vida matrimonial há tantas feridas! As pessoas precisam de misericórdia, de empatia, da simpatia da Igreja nestes tempos difíceis. Acho que a misericórdia é a resposta aos sinais dos tempos.

 

Entrevista original publicada em Vatican News.
Tradução de DACS.

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